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A vida é uma cambalhota pegada. Porra que já passaram 7 anos.

Estava aqui às voltas no computador, e encontrei as palavras que escrevi, sentada numa café perto da Avenida 5 de Outubro, enquanto esperava por uma das minhas primeiras entrevistas de trabalho. 

 

 

« Falta uma hora para a entrevista. Ainda... Já cá estou.
Sentada no café com vista para a pastelaria, que por sua vez está de frente para o restaurante. De facto Portugal está feito em padarias, bolos e bitoques. «O que dá sempre é a comida», já diz a minha mãe, cheia de razão. 
Como um pastel de nata e bebo uma bica cheia. Sempre cheia. Não tenho fome nem sede, mas preciso justificar os 45 minutos que vou passar aqui sentada ( só passaram cinco e o empregado já está ''de olho em mim''. Não sei se me achou alguma graça ou se tem medo que saia a correr porta fora, de chávena na mão).
Este meu medo de chegar tarde já me custou uma boa dúzia de pastéis de nata. Litros de café e chá frio. 
A meu lado, três homens discutem as novas contratações do Benfica e apostam  resultados para a próxima época. Pela primeira vez na vida quero lá saber do Benfica. 
Sinto-me no papel do velho amargurado que repete sempre as mesmas frases . Que diz que ''eles é que ganham o dinheiro''. Que ''não é o futebol que me paga as contas''.
Estou a desanimar. É a minha terceira entrevista e nada. Tenho o ego amargurado. Como o velho. Como a porcaria da bica que não presta.
Já não sei mais  o que dizer. Como vender o meu trabalho. Como mostrar interesse sem parecer ''chata''. Que postura adoptar... sinto-me uma sardinha à venda na lota. 
«Estejam prontos para a prostituição que aí vem.» Disse-me um dia um docente na faculdade. Agora ex faculdade..
Roguei-lhe mil  pragas e classifiquei-o de idiota. Hoje, às voltas no recheio do pastel de nata, lembro-me exactamente destas palavras. Compreendo-as.
Esta merda de procurar emprego, estágio, seja o que for, é mesmo isso : uma merda. 

Bem, vou devolver a caneta à senhora do balcão. Está a olhar para mim e a pensar « Se soubesse que ias escrever um testamento não te tinha emprestado nada». Aposto! 
E com isto só já faltam 30 minutos. 
Vou fingir que estou a falar ao telefone, é o último patamar do ridículo. »

 

 

Se encontrasse hoje essa miúda pedia-lhe para deixar de ser parva. Dizia-lhe que tudo iria correr bem...e  para aproveitar a vidinha... muito. Que isto é uma "sopradela nas velas do bolo", e passa tudo em menos de um farelo. 

 

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