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O voo dos infernos #JASUSVALHANOSDEUS.

Na passada madrugada de Sexta para Sábado voei de Lisboa para Londres. Foram só quatro dias, uma escapadinha "jeito maneira", mas o suficiente para me confrontar pela milésima vez com o PAVOR-MALINO que tenho de andar de avião. Quer dizer, eu não tenho medo do voo em si. O meu tormento master é aquela mão cheia de minutos entre o "tirar as patinhas do chão" e o estabilizar do bicho lá em cima. Depois, bem ou mal, lá me vou aguentando e tem vezes em que até passo pelas brasas. 

O momento alto do desespero é a entrada no avião! O olhar para a cara das pessoas que estão à minha volta e pensar "ahhhh vamos todos bater os paus, estou a sentir". Também é verdade que o sinto sempre, mas sinto-o com toda a convicção da vida, certa de que fomos todos escolhidos a dedo para entrar naquele caixote com a mania que é pássaro,  e esborrarcharmo-nos  no chão. 

Desta vez não foi diferente. Aliás, foi... foi pior! Quando estávamos na fila para passar a revista,  um tipo qualquer (muito chunguita e por acaso (ou não) carregando uma mochila do Sporting) armou o maior dos carnavais porque "o site estava escrito em inglês e não percebeu o que dizia. Por isso trazia a bagagem  a cima das medidas permitidas". E parecia um touro bravo, aos berros e às patadas. Escusado será dizer que nesse instante me passou logo pela cabeça estar perante um sinal de Deus nossos Senhor, que de uma forma pouco explicita me alertava para o perigo! "Não entres nesse avião", ouvia eu, numa voz rouca e profunda, directamente do além. Entrei. 

 

E só quando estava a subir as escadinhas da morte percebi que estávamos todos separados. Éramos 6 amigos e ia cada um na sua ponta do avião. Novo momento de tensão. Morrer sozinha, era esse o meu destino! O horror. 

 

Os sinais seguiam-se, uns atrás dos outros, e eu cada vez mais nervosa. Pingando de nervos!

Quando a porta do avião (à pinha) estava prestes a fechar, eis que uma senhora entra aos gritos, louca da vida, a estrebuchar com a tripulação, que a mal tratou por um motivo qualquer e que a deixará à beira de um piripac. Quando dei por ela, já a dita cuja estava estendida no chão, aos tremelicos e quase a perder os sentidos!

Foi quando a minha cunhada,  que é enfermeira, se levantou para "acudir" a senhora e pôr ordem na barraca. (Sim porque por essa altura já estava meio avião em ácidos, reclamando o atraso e desejosos de despachar a velha viva ou morta). 

Diagnóstico: Ataque de pânico. Resultado: 20 minutos de atraso!

 

E foi nesse preciso momento, entre o piripac da indignada e o grito de um senhor aciganado que se lembrou ter deixado o casaco no aeroporto (que dizia valer 400 libras, mas que eu aposto ter custado 20 euros na feira do relógio), que pensei sair porta fora. Era Deus a berrar-me aos ouvidos,era senhora de Fátima a puxar-me pelo braço psicologicamente, era eu de pequeno órgão vital aos saltos,  certa de que o "gang das santidades" tinha juntados os maluquinhos todos no mesmo voo,  para arrumar com eles de uma vez. 

 

Por fim, quase meia hora mais tarde, lá o piloto saiu do seu spot e veio resolver o assunto. Lá o aciganado foi buscar o casaco, lá a velha em pânico foi transportada de ambulância. Lá levantámos voo, nem sei bem como....

Quando finalmente respirei e pensei descansar a vista (que o voo foi às 5 da matina), a rapariga a meu lado decidiu que havíamos de travar amizade para a vida. E contou-me a vidinha toda, de ponta a ponta... enquanto se maquilhava e me enchia o casaco de blush. 

Foi uma viagem dos infernos, meus amigos, e parecia não ter fim. Mas teve, com a graça de Deus que deve ter sentido uma pontinha de remorsos,  e a meio caminho resolveu poupar-nos a vidinha. Porque ninguém me tira da moleirinha que aquele avião tinha o destino traçado. Que estávamos todos destinados a morrer chorriscados, esmagados, afogados,  ou qualquer outra coisa acabada em "ados", do outro lado do barranco. De pernil estendido. Com a boquinha cheia de formigas. 

 

Mas ainda não foi desta. Vá lá.