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"Sim encaracoladas, está na hora de aceitar o vosso ninho de rolas"

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Há coisa de dois ou três dias partilhei esta foto no instagram (AQUI) e como sempre acontece quando o cabelo está em destaque, recebi muitas mensagens de mulheres a elogiar o "pequeno ninho de rolas" que carrego na moleirinha, há quase 28 anos.

Fico sempre contente, obviamente, que isto de ouvir elogios é sempre uma valente lambedela no ego e toooooda a gente gosta, digam lá o que disserem.

Sobretudo para mim, que à semelhança de muitttttaaaa mulher encaracolada já tive uma relação terrível com o meu cabelo. Dou por mim a pensar que realmente “a galinha da vizinha é sempre melhor do que a minha”.

Ouço tantas vezes desabafos como “ahhhh eu gosto tanto dos teus caracóis. Eu também tenho, mas os meus são para lá de horríveis”. 

Durante quase toda a vida também eu ODIEI o meu cabelo. Mas quando digo odiei não é exagero. Eu era moça para vender a tia-avó em troca de uma cabeleira lisa e escorrida. De uns fios louros e sedosos, daqueles que nem um gancho aguentam, ou nos quais é possível fritar batatas, quando não lavados todo o santo dia. Era esse o meu sonho da vida!

Na escola toooodas as minhas amigas tinham cabelos lisos, com franjas a direito a cair-lhes na testa. Eram a cara "das modas", e eu a cara da cafonice-pegada! O literal chaparro alentejano.

A miúda que NUNCA soltava o cabelo, e que andava constantemente de rabo de cavalo. Que nunca conseguia colocar o boné da escola na cabeça, em dia de visitas de estudo, porque o cabelo era demasiado volumoso e não cabia. Pequenos "nada" que na cabeça de uma criança/ adolescente são muita coisa.

E pronto, cresci sempre a tentar "descer" o cabelo com as mãos. A afogá-lo em gel e espuma, e tudo o que o mantivesse quieto e paralisado. 

A pedir às amigas que me fossem avisando ao longo da noite "se estava tudo no sítio?", ou se os bandidos estavam a “esticar as pernas” e fugir do lugar.  Enfim. Não era nada feliz com o cabelo que Deus me deu.

Acho que o episódio que mais me marcou foi num qualquer dia da mãe, devia ter 7 ou 8 anos, ir com a turma toda ao jardim com o objectivo de tirar uma foto para oferecer às progenitoras. Eu levava o cabelo amarrado, estilo coque, mas abandalhado, e a professora  pediu-me para desamarrar o cabelo e assim ficar mais bonita. Disse que não. Ela insistiu. Entrei em pânico! Toda a turma a olhar para mim e eu com a certezinha absoluta de que se soltasse o cabelo ia armar tal qual um chapéu de sol. Toda a gente ia rir de mim.

Tirei a foto de cabelo amarrado sob o olhar marafado da professor, que desconhecedora deste meu pequeno drama capilar, assumiu que estava apenas a protagonizar um momento diva-birrenta.

Hoje é só ridículo,  mas na altura foi algo que me marcou muito. 

 

Isto para dizer que também eu odiei ser encaracolada. Até começar a perceber (a idade ajuda muito) que ser “a miúda dos caracóis” não era assim tão mau. Que o meu cabelo é provavelmente o meu maior traço de identidade e que sem ele não sou tão eu!

E talvez crescer seja isto. A procura da tua identidade e o afastamento natural do rebanho. 

Quando recebo mensagens de miúdas a pedir-me conselhos e a dizer que detestam o cabelo de “irmã pobre” que deus nossos senhor lhes conferiu, tenho vontade de lhes dizer que esse sentimento vai passar. Que vai dar a volta e que ainda vão adorar a cabeleira volumosa ! Mas sei por experiência própria que de nada adianta. que só os anos e a maturidade trazem a aceitação e o enamoramento de nós para nós. Por nós!

 

Vim cá só para dizer isto: que as nossas especificidades são realmente o que nos tornam mais bonitos… e que se vocês ODEIAM o vosso cabelo é porque ainda não olharam para ele com olhos de ver.  Dêem uma oportunidade ao vosso ninho de rolas...aos vossos caracóis. Talvez acabem muito apaixonadas por eles, e consequentemente por vocês próprias! 

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