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''Se me pedires em casamento, não me dês um anel! ''

Nunca nesta vida sonhei casar. Nunca. Não é coisa que faça parte dos meus planos, não consigo imaginar-me no papel de noiva, e ainda que possa vir a acontecer será sempre isso, um ''aconteceu'' sem qualquer tipo de idealização ou  síndrome-de-princesa.

Talvez por ter uma ideia muito prática das relações, não tenho uma visão muito romântica do casamento nem acho que signifique assim tanta coisa. Mas pronto, nunca se sabe o dia de amanhã, e se há coisa que (já) sei sobre mim é que mudo de ideias com muita facilidade. E hoje sou louca por azul da mesma maneira que amanhã perco a cabeça pelo amarelo! Nunca fiando.

 

Contudo, volta e meia, o tema ''marriage'' vem à baila, e digo sempre a mesma coisa ao Dom Homem: se algum dia me pedires em casamento NÃO me ofereças um anel. Dá-me antes uma mala (ou carteira, como preferirem chamar-lhe!). E ele diz que não tem jeitinho nenhum, que a tradição não é essa, e eu lá tento explicar-lhe (um bocadinho à bruta), que me estou pouco marimbando para a tradição. Que ele não vai casar com a tradição, nem com as milhentas mulheres que a cumpriram... vai querer casar COMIGO e SÓ COMIGO... e eu adoro malas! Também gosto de anéis,é certo, mas ficaria muito mais feliz se recebesse uma malinha... (até porque tenho o triste vício de roer as unhas e já o estou a ver, de joelhos, a enfiar o bom do anel numa mão toda escavacada -blhac). 

 

Cada vez que digo isto a alguém recebo de volta um olhar esbugalhado, como quem diz ''esta não fecha bem a tampa''. E acho que é por estas coisas que não acho piadinha nenhuma ao santo matrimónio. Porque é sempre, sempre, a mesma coisa. Porque nos quer encafuar a todos no mesmo saco, ainda que sejamos todos diferentes. E se há coisa que eu não gosto é disso... de me sentir encafuada, no meio da molhada.

 

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Meu querido homem: Esta que te escreve, e que dá cor e luz à tua vida, não nasceu para ser ovelha. Nasceu para ser pastora. Uma pastora de mala ao ombro, toda pimpona da vida. 

E é isto. 

 

Love*

Elza 

 

Avó.

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 Às vezes, enquanto ''budegas'' nas garagem, peço-te que prometas que viverás para sempre. E tu reviras os olhos, sem me ligares ''meia'', e depois num resmungo franzido dizes-me que sim. Que prometes.

Não sei quanto tempo durará o nosso ''para sempre'' mas sei que de velha nunca partirás, avó. Porque olho para nós e sinto-nos duas miúdas. E talvez quem esteja a ler isto não veja o mesmo que eu, até porque toda a vida gostaste de fingir ''má cara'' nas fotografias (é de família, a tia Toninha é igual).  Mas eu vejo. Vejo sempre. Vejo para sempre. Olho-me a mim com 25 anos, e às vezes 100 mais do que tu. Vejo-te a ti com 83, tão jovem que nunca te cansas. Que nunca te queixas.  

 

Esta tarde passei pela florista e vi amores perfeitos. Lembrei-me do nosso quintal. Fiz sopa e juntei-lhe um ovo picado para ''dar gosto'', como tu também fazes. Troquei o nome de uma amiga, e depois disse-lhe que estou a ficar como tu, que nunca acertas no nome da neta... e assim, no que me lembro, no que me ensinas, e no que nos parecemos, se constrói o nosso infinito. Ainda que a minha sopa não seja tão boa quanto a tua, nem eu tão jovem quanto tu sempre serás.

E serás para sempre, avozinha. Isso quem (te) promete sou eu. 

 

ps. A tua sopa é mais gostosa porque enfias uma colherada de manteiga lá para dentro, como a mãe também faz, assim meio à ''socapa''. Não penses que me enganas.  Doninha.

 

 

Escrevi este texto a 22.06.2015. Hoje é dia dos avós e lembrei-me de o agarrar outra vez.