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29.

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Os 28 começaram há  um ano,  comigo toda confiançuda, literalmente "dona do pedaço", que é como quem diz "acabadinha de comprar a minha  primeira casa". A vida estava estável, o emprego estava mais ou menos certo, a conta não estando propriamente a rebentar pelas costuras, estava confortável. A vida estava bem. Estava tudo bem.E perante este cenário manso, os últimos cartuchos a lançar antes dos 30 prometiam ser isso mesmo: um sossego, uma acomodação, sem grandes pinos e cambalhotas . Mais ou menos como aqueles capítulos dos livros em que não acontece nada. Que servem de ligação entre as partes. Que lemos na diagonal e que às vezes nos desligam da história.

Os 29 começaram há 19 dias. Os 30 chegam daqui a 346. A casa que comprei já não é minha. O contrato que assinei já não existe e sou agora trabalhadora independente, a chamada “freelancer”, que isto em inglês tem tudo  outra chiqueza implícita.

Como é que isto tudo aconteceu em meia dúzia de meses? Ainda me pergunto. Cada vez menos me pergunto.

A vida mudou num sopro e quem soprou fui eu. E nos de repentes, em quase todas as esferas,  vi-me a começar tudo outra vez. A protagonizar o maior dos clichés. Aquele que nos diz que a proximidade dos 30 traz perspetiva, traz viragem, traz um “chocalhar de alma” e um desenrolar  de língua, que solta a pergunta para um milhão de euros: “afinal quem és tu e o que é que andas por aqui a fazer?”.

 Fiz  29 anos há quatro mãos cheias de dias e não sei dizer-vos tudo o que mudou nos últimos...6 meses? Mudou muito.  Quase nada que se veja, até porque a olho nu talvez pareça precisamente o inverso:. que regredi. Que a vida está humida, como roupa que deixámos dentro da máquina a noite toda.

A última metade destes 28 anos foi assim uma mertelada na cabeça. E o meu despedimento voluntário não abriu apenas portas para uma mudança profissional. Escrevi pouco sobre isso, apenas AQUI , mas se tivesse de escrever uma frase que resumisse o que não vos consigo quantificar, diria que : independentemente de onde vivas, de quantas vezes abras e feches portas, compres e vendas, arrendes e voltes a sair… a tua casa é tu. Sempre tu. Para sempre tu. E é em ti que tens de vive. Contigo e por ti, mesmo que a teu lado esteja alguém incrível. Ainda que estejas sozinha. A nossa casa, a nossa pessoa… somos nós. E eu errei muito até aprender isto. Erramos todos?

Achei durante muito tempo que ter a nossa pessoa nos desresponsabilizava um bocadinho da angustiante obrigação que é fazermo-nos felizes. Não é muito mais fácil ter alguém com quem dividir essa responsabilidade? Alguém que possamos também culpar um bocadinho quando as coisas não correm assim tão bem?

Entro nos 29 com mais cabelos brancos, com as primeiras rugas a querer riscar-me a pele que dá a volta aos olhos. Mas entro nos 29  com menos tralha, com uma vontade imensa de viver com menos tralha. Com muito trabalho, e a sentir-me menos presa. Mais passarinho.

Entro nos 29 com a certeza de que aconteça o que acontecer, é comigo que passarei o resto da vida. E por isso, ignorando a beleza dos livros que nos vendem o contrário, da música e do cinema que nos cantam a felicidade como um encontro a dois…. a nossa casa somos nós. 

 

 LOve*

Elza 

 

 

 

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