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A carniceira low cost

Toda a vida tive o vicio de roer as unhas,  e toda a vida inventei boas desculpas que justificassem as mãos de vendedora de farturas que apresentava. Porque se há coisa em que eu sou mesmo boa, upa upa lá para cima, é nisto: criar justificações mentais para as coisas. Roía as unhas porque via o meu irmão roer e como tal roia também. Uma pessoa tende a imitar o irmão mais velho, certo? Pois. Roía as unhas porque o Benfica me mexia com os nervos e porque volta e meia os jornais anunciavam a transferência do Simão Sabrosa. Roía as unhas porque o puto giro lá da escola pagou uma sandes de atum à miúda mete nojo no intervalo das dez. Porque havia teste de matemática nessa semana. Porque a Célia (cabeleireira) me tinha cordado três metros do cabelo, quando eu pedi que desse só um jetinho nas pontas. Porque o preço do gasóleo disparou. Porque o bacalhau está em vias de estinção e eu adoro bacalhau. Estão a perceber, não estão? Pois.

E nisto se passaram vinte e tal anos. E nisto invejei toda uma vida as gajas que conseguiam bater com as unhas  na mesa e que compravam vernizes da risqué no chinês lá da vila. Eu comprava canetas de cheiro e já ia com sorte! 

Pois que há coisa de um ano  resolvi pôr fim a isto e admitir o problema: sou uma roedora compulsiva, capaz de competir com o campeão mundial dos hamsters.

Comecei assim a fazer unhas de gel e todo um novo mundo se espernegou à minha frente. Ah e tal porque não fazes gelinho, já que desgasta menos as unhas? Pois. Porque o gelinho é para meninas e nas minhas mãos dura sensivelmente 3,7 segundos. Quatro, quando estou distraída. Arranco tudo à dentada.

Gosto das unhas de gel. Nunca lascam, nunca partem, e uma gaja está sempre pronta para qualquer eventualidade. O único problema é mesmo a manutenção. Sim, porque eu gosto delas finas, delicadas, naturais, não  muito quadradas, mas também não propriamente redondas, e não é qualquer uma que consegue deixar estas mãos, outrora medonhas, na perfeição. Não. Por isso nunca pago menos de 30 euros o que, para uma pessoa como eu,  em luta contra constante contra a pobreza, é bastante. Ok, se calhar não sou assim tão pobre. Se calhar a minha mãe tem razão e sou só um bocadinho forreta. Que seja! 

Este mês, resolvi experimentar uma moça, com fama de prendada, e que, milagre dos milagres, cobra apenas 15 euros pelo serviço! 15 euros! Lá fui,  trocando a minha russa ma-ra-vi-lhosa pela tuga desconhecida.

Lá fui alegre e contente, achando estar a fazer um negócio para cima de espectacular.

Pois que, para começar, cortou-me as unhas RENTES quando o que eu pedi foi que as deixasse bem compridinhas (levei uma vida a conseguir um tamanho decente). Ficaram mínimas.  Enfim, paciência.

Depois já semi arrependida, pedi que usasse a cor nude, porque estava cansada das unhas escuras. Não tinha, mas jurou a pés juntos ter um ''branquinho perola'' lindo de morrer.  Confiei. Estão a ver o corrector que usamos na escola? Tal e qual. Pegajoso, cheio de bolhas de ar, seco! Desconfio até que tenha sido usado para pintar as unhas às damas de honor da princesa Diana, lá para 1900 e troca o passo.

Gasto, sem brilho, nojento! 

Lá reclamei, bati o pé, e pedi à senhora (delicadamente) que fizesse tudo de novo. Que era impensável sair à rua naquela figura... e foi aí que começou a festa! Irritada, bufando e insultando-me mentalmente, a carniceira começou a limar-me as unhas até... à carne!!!! Basicamente fiquei com metade dos dedos, TODOS OS DEDOS, em carne viva, capazes de fazer frente aos da Sónia Brasão no dia da desgraça.

Conduzi até casa com as mãos em ferida (juro que não estou a exagerar), passei na farmácia e estive nos últimos quatro dias besuntada em pomada para as queimaduras! Não conseguia tomar banho, lavar loiça, ou mesmo desabotoar o botão das calças para fazer um xixi! Imaginem. 

 

Isto para dizer que a carniceira low cost merecia um processo em cima. Ou isso ou que contratasse quatro ou cinco gandulos, daqueles grandes e insuflados, e que lá fossem ao estaminé partir aquela m*erda toda. 

Estou melhor, bem melhor, mas não vejo a hora de regressar à minha russa e reparar os estragos. Pedir-me muita desculpa pela traição e jurar fidelidade de agora em diante.

 

NUNCA-MAIS.

 

A foto não é a melhor, mas aqui ficam os meus dedos, já melhores, dois dias depois.

IMG_0582.JPG

 

Ah e como se não bastasse vieram para casa pintadas de beringela. Já disse que odeio beringela?