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Desporto: fuga ou libertação?

Quando me inscrevi no ginásio, há coisa de quatro anos, fi-lo porque estava gorda. Deixemo-nos de merdas. Quando uma gaja resolve trocar o sofá e a bolacha Maria pela passadeira e pela maçã verde é porque o fecho das calças não sobe. Porque já não consegue contar as costelas ou porque os ossos das ancas se afundaram ''banha a dentro''.

Vinha de 18 de anos de competição em patinagem artística (encerrados ''à bruta''), seguidos por um ou dois de sedentarismo total! Estava mole, sem linhas, e eis que num dia de extrema bravura me inscrevi no Solinca.

Ia uma semana, estava duas ou três sem aparecer. Voltava 15 dias, parava mais sete ou oito... era isto. Entretanto, numa altura em que o rabo gelatinoso era o maior dos meus problemas, o pequeno órgão vital espatifou-se à grande e a vida descambou por ali a baixo. Os falhanços amorosos sucederam-se, o emprego não me animava por aí além, e foi nessa altura, sentido-me uma pequena ratazana de esgoto, que me comecei a refugiar no ginásio. Treinava duas vezes por dia, seis (às vezes sete) vezes por semana. Investia todo o meu dinheiro em equipamento, sabia tudo sobre cada modalidade, treino combinado, alimentação desportiva... enfim. O ginásio deixou de ser um prazer transformando-se num vicio. Uma fuga da minha realidade, que na altura estava tão interessante quanto um debate parlamentar emitido ao fim de semana.

Os resultados estavam lá: Tinha o rabo rijo e empinado assim como a cabeça ocupada. Saía do ginásio às 10 da noite, jantava e dormia. Não havia tempo para grandes reflexões nem para ''chicoteamentos'' mentais. Às vezes ainda me sentia uma pequena ratazana, sim, mas agora uma ratazana fit! O que faz toda a diferença. 

 

 Aos poucos a vida melhorou. Conheci o homem, tornei-me uma profissional mais feliz e consequentemente o dia-a-dia ganhou uma catrefada de extras. De repente, havia muito para fazer. Onde ir. Com quem ir. Reduzi consideravelmente o ritmo de treino. Não deixei de frequentar o ginásio, mas reequilibrei-me. Hoje, não treino sete vezes por semana, mas apenas cinco. Não faço dois treinos por dia, salvo raríssimas excepções. Não deixo de estar com os amigos porque tenho uma aula. Não vivo envolvida naquela bolha desportiva que me sugava para dentro de um universo onde só existia o treino, as pessoas do treino, e uma dúzia de bananas batidas com proteína! 

Tornei-me muito mais feliz. Não deixo NUNCA de praticar exercício (até porque o prazer de um rabo rijo é um caminho sem volta) mas encaro o treino como ''o meu momento''. Uma hora diária em que me livro do stress, em que me esqueço dos problemas e em que me foco apenas em mim. Na minha superação. No meu bem estar. 

 

O desporto já foi a minha fuga, e ainda que me tenha ajudado bastante, tornou-se progressivamente uma prisão.  Agora, o exercício físico é parte da minha liberdade, do meu equilíbrio, e da minha felicidade, em última instância. 

 

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Conclusão: isto de mexer as carnes é assim uma coisa espectacular. Desde que seja vivido de forma equilibrada. Caso contrário, torna-se um vício. E não me venham cá dizer que ''há vícios bons'', porque não há. Um vício é sempre um vicio. Agora e sempre. Aqui ou no Paraguai.