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E quando ninguém nos quer?

Quando há coisa de um ano resolvi deixar a empresa onde estava há três, sabia que estava a dar um passo em frente. No escuro, descalço, sem garantia de coisa nenhuma, mas em frente. Senti que aquele era o caminho desde que lhe bati o olho. Soube-o logo, porque o instinto me o disse, e porque é essa a única forma que conheço de me mexer: ouvir a intuição e depois entregar nas mãos do universo.

Senti que estava na hora de abdicar do emprego a contrato, relativamente estável e confortável, por três meses numa empresa que não me prometia absolutamente nada. Iria receber mais dinheiro, é verdade, mas eram três meses.

Foi uma escolha minha, SÓ minha, e faço questão de o repetir para dentro sempre que ''a porca torce o rabo'' e baixa em mim a vitima-pobrezinha-enjoadinha (fenómeno que ocorre muitas vezes, segundo consta).

E isto de ser freelancer é absolutamente espectacular quando a coisa corre bem . Mas não corre bem todos os dias, nem pouco mais ou menos.

Acredito mais agora que ''trabalhador independente'' é farpela que não serve no corpinho de toda a gente. Que não pode ser uma imposição do mercado. Tem de ser uma escolha! Eu própria, ainda estou a tentar perceber como é que se vive nesta corda bamba. Nesta vida que não tem dia nem hora para acontecer, que não permite planos, e que obriga a começar de novo uma catrefada de vezes. Nunca sei se no mês seguinte estou a fazer ''umas coisinhas para desenrascar'', num projecto líder de audiências, ou em casa a dobrar cuecas!

É precisa uma gestão financeira inteligente e uma enorme capacidade de adaptação. Mais, é preciso ser-se muito seguro daquilo que se quer e daquilo que se é. Daquilo que se vale enquanto pessoa e enquanto produto. Porque sim, somos um produto de mercado .Vendemos o nosso trabalho como se de um tupperware se tratasse, e difícil não é dizer (acreditar) que o nosso tupperware é muita forte e muita bom. Difícil é aceitar períodos em que ninguém nos quer. É esse o grande desafio da coisa (ou a grande merda, como preferirem chamar-lhe). Quando não há trabalho, quando te dizem que não e logo depois dizem que sim ao tipo que até conheces, com quem já trabalhaste, e que aos teus olhos nem vale grande coisa. Acontece, faz parte, e exige auto-estima à prova de bala. Muitas vezes o ego cai ribanceira a baixo, muitas vezes dou por mim a pensar nas escolhas que fiz... mas há qualquer coisa, juro-vos que há, que me diz sempre que estou no caminho certo. Que é por aqui, que estes calhaus na estrada fazem parte, e que no fim da festa as contas vão bater todas certas!

Neste primeiro ano como freelancer passei por momentos completamente diferentes. Eu, instável por natureza, entrei na toca da instabilidade-mãe, uma valente de uma ursa, entenda-se! E vivi projectos incríveis intercalados com períodos de seca. Tão depressa trabalhei 20 horas seguidas, como passei tardes espojada na Padaria Portuguesa. Tanto tive dinheiro para gastar sem grandes culpas, como pensei duas vezes antes de levar para casa pacotes de leite de arroz a 2 euros e noventa!  Tenho feito coisas giras, com equipas experientes, e pertencido a programas de enorme visibilidade.

Há três dias comecei a trabalhar num projecto completamente diferente de tudo o que já fiz na vida! Algo que exige rapidez e eficácia, e que não quer saber se aqui a ''miúda dos conteúdos'' está ainda a tentar compreender o esquema. É preciso apresentar resultados! Porque o cliente não espera nem está preocupado com o paneleirote do meu órgão vital.

Comecei sem expectativa nenhuma, porque esta vida também já me ensinou que é melhor assim, e estou a safar-me. Pensei mesmo que não iria ser capaz mas estou a ser. Ainda a apanhar ''no ar'' de quando em vez, mas a coisa dá-se!

Não é fácil reinventarmos-nos a toda a hora, não é. Mas pior, muito pior do que isso, são os períodos em que ninguém nos quer. Dói, estrafega o ego, mói a alma da gente... e depois o telefone toca e começa tudo outra vez. Com mais ou com menos dinheiro, mais ou com menos horas no lombo, mas sempre com aquele frio na barriga que nos atormenta e que nos alimenta. A nós que queremos sempre mais da vida. A nós, que acreditamos no sentido desta trapalhada toda, a nós que vamos com tudo... até onde Deus quiser.