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"Faz-te mulher", disse ela. Oh, eu só queria apanhar o autocarro.

Cheguei a Lisboa, já lá vão duas mãos cheias de anos, a sentir-me a "cara da maturidade". Convencidona de que estava "no ponto" para começar um vida independente, adulta e desenrascada!! 

Acontece que aquele sentimento "show das poderosas" "brotou-se-me" na alma e durou para aí três quartos de hora, que é como quem diz até à primeira manhã em modo "estás por tua conta". 

Sai de casa para apanhar o autocarro "Alfragide- Benfica", e quando dei por mim estava à porta da Fundação C. Gulbenkian. "Porra... que ainda não vi o estádio da Luz, nem o Colombo, nem a escola... nem coisa nenhuma", dizia-me, procurando o telemóvel na mala,  pronta para ligar à xô dona mãe, que a 200 km, com certeza, me daria um mega help! Só-que-não. 

Lembro-me como se fosse hoje: "Mãeeeee enganei-me, não faço ideia onde estou, são 9h00 e a primeira aula começava às 8h30. Sei lá agora como volto para trás", gritava, meio tresloucada, espalhando o charme de tooodo um sotaque serrado pelo autocarro! E a mãe, certamente engolindo o pequeno órgão-vital-progenitor-apertado, teve a melhor atitude da vida: "Escuta, o que queres que te faça? Acalma-te, procura um solução, e faz-te mulher", disse. E aquilo bateu-me no estômago com uma biqueira de aço. PAU, lá estava ela...a minha super mãe galinha a espetar-me uma belinha na testa. "Faz-te mulher", repetia-me o eco. 

E lá perguntei a não sei quem que autocarro apanhar para Benfica, e lá me disseram que de metro era um instante, e lá comprei cartão, e lá fui... tentando ser mulher mas sendo só aquilo que podia ser. Que sabia ser.  Um passarinho. Era isso que eu era, um passarinho. 

 

Sempre que vou ao Jardim da Gulbenkian lembro-me deste dia. Que me parece tão longe e ao mesmo tempo tão "já ali antes de ontem". 

E eu já não sou aquela miúda, nem a minha mãe já deve ser aquela mãe. 

 

Este fim de semana fui à Gulbenkian e consegui mais uma vez ver-me de sweatshirt da trottleman,  descabelada, e ainda tão desprovida de quase tudo, a desejar voltar para casa. Foi a única vez que o desejei em tantos anos.  

Às vezes é bom olharmos um bocadinho para trás, e percebermos que fizemos (quase) tudo certo. Que tentámos. Que somos mulheres, mais mulheres... que somos passarinho, tantas vezes.

E ainda ligo à minha mãe quando a cidade me engole... mas já sei como engoli-la de volta. 10 anos. Caramba.

Continuo a perder-me em Lisboa, a não perceber patavina de autocarros, nem de sentidos, nem de números nem de nada. Continuo a ser um zero no campo da orientação e ainda sinto um pernicão no peito quando vejo o estádio da Luz. 

Sou um passarinho mais sabido, mas um passarinho.... que ainda procura ser a mulher que a mãe mandou ser, mas que já não usa sweatshirts da Trottleman. E isso, por si só, já é um progresso.

 

 

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 Jardins da Gulbenkian.

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