Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Há quem lhe chame capricho. Eu cá chamo-lhe "conservação do (meu) património"

Quando mantemos uma relação estável com alguém,  caímos muitas vezes no erro de achar que sabemos tudo sobre a outra pessoa. Que a conhecemos como ''se a tivéssemos parido'', expressão usada muitas vezes pela minha mãe, e que eu abomino quase tanto quanto ouvi-la chamar-me pelo meu segundo nome.
Quando se atinge um determinado grau de intimidade, acreditamos genuinamente dominar o livro de instruções do outro, e estar prontos para qualquer teste de conhecimento, tipo ''exame de código da estrada''. Uma parvoíce.
Confiamos no nosso sexto sentido (no caso das mulheres)  e convencemo-nos de que saber quantas colheres de açúcar o nossos respectivo junta ao café é praticamente o mesmo que saber tudo o que vai na cabeça e na alma.
Que ter a certeza daquilo que diria no cinema sobre certo e determinado filme, nos confere um mestrado na ''história de vida '' daquele pequeno ser, cuja existência ganhou sentido após nos conhecer.
Nada mais errado minhas amigas, nada mais errado!
A dura verdade é que nós nunca sabemos tudo sobre o nosso parceiro (a palavra ''parceiro'' remete-me sempre para aqueles artigos muito sérios analisados por sexólogos nas revistas cor de rosa).
A verdade, é que o outro é sempre território desconhecido, imprevisível, e que a viagem da descoberta, eterna minhas amigas, eterna, é pautada por momentos de surpresa boa, e por momentos de grande desilusão!

E o truque que me ocorre agora, retirado do manual mental de estratégias de convivência pós amantização, é só um: Fingir que não se vê muita coisa. Fazer de conta que acreditamos noutras tantas. 

 

Eu por exemplo tooooodas as semanas, num alegre e bem intencionado gesto de amor, enfio meia dúzia de barritas saudáveis na mochila do homem. E dito assim parece uma coisa muito maternal, mas não é! O meu único e direto objetivo passa por evitar que se empanturre em palmiers folhados e pasteis de nata, no café da esquina. 

E lá vou fingindo que a minha estratégia "bora lá retardar os efeitos dos 30" resulta às mil maravilhas, e que o sonso do homem cumpre à risca, estando até a ficar amigo do caju e da amêndoa, prestes a perder o gosto pela gordurança saturada. 

E atenção! Eu não quero mudar-lhe absolutamente nada! Isto é só uma espécie de manutenção, um ato de consciência....de preservação de património, vá! 

 

É que não há nada que me assuste mais do que aquela conversa de mulherzinha-casada que começa sempre num '' ai o meu Paulo, quando nos conhecemos, era uma estampa'', e que termina invariavelmente em qualquer coisa como '' depois de casar foi sempre a subir. Em três anos ganhou  vinte e quatro quilos''. Ahhhhh  Medo.
Por estranho que pareça, o certo é que há sempre um cheirinho de orgulho nestas palavras. Qualquer coisa como '' desde que está comigo acabou-se a vadiagem que o mantinha magro como um cão. Agora sim é um homem! Ah, e se está assim, de barriguinha cheia e roupa lavada, a mim o deve''.


Digo que este discurso me assusta e que, ainda que adore o homem a cima de qualquer  questão estética, a verdade é que não quero que se torne um pequeno leitão. Não quero, não quero, não quero! Pronto.

 

E não vejo mal nenhum nesta tentativa de preservação do meu património. Mesmo que saiba que continua a empanturrar-se nas minhas coisas. E que me engana, quando me diz ao telefone estar a trincar lascas de coco, quando punha as manitas no fogo e não me queimava, que naquela boquinha santa, se cria toooodo um bolo alimentar à base de merenda mista, quentinha a estalar! 

Nunca sabemos tudo sobre a nossa pessoa. Mas o certo é que antes assim... a dizer-me que almoçou bifes de peru com salada, do que a inventar reuniões de hora de almoço, para um "pica-pau de novilho" no restaurante do Sheraton. Se é que me entendem! 

Love*

Elza. 

 

PS. Sim, porque o meu homem é uma pessoa fina. Não ia cá para Ibis da vida. Era só o que faltava.