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O clic da libertação

O cabelo é provavelmente o ''big drama'' na vida de muitas mulheres. E sim, homens que me estão a ler, o cabelo é assim TÃO importante. Para nós é, e não tentem perceber porquê.

Atrevo-me a dizer (correndo sérios riscos de ser apedrejada pela comissão nacional de cabelos ''oleo fula'') que, de toda a mulherada, as mais sofridas somos mesmo nós, portadoras de caracóis. 

Não é fácil, não é fácil.

''Ah que disparate, caracóis é uma coisa tão fofinha'', diz a gaja de cabelo liso, sedoso, que acorda tal qual se deitou, e que assim de repente só precisa de 5 minutos para sair de casa impecável.

''Oh não digas isso, o cabelo encaracolado é super forte e dá para fazer montes de coisas'', repete  outra de cabelo recto, pelo ombro, com uma franja cheia de pinta e de brilho.  

Não sabem do que falam, coitadas, e ainda bem para elas! (Às vezes, cansada desta lengalenga, apetece-me cravar-lhes uma valente biqueirada na boca. Mas contenho-me).

O cabelo encaracolado é  coisa bonita de se ver, mas vão por mim: na cabeça dos outros é muito mais espectacular! Quem os tem sabe do que falo. Sabe que é um grande cocó sair à rua de cabeça molhada no Inverno, mas que é impensável secar a juba sem parecer um dente de leão ao vento. Que é uma tortura nunca saber como é que ''ele vai acordar'' mas ter, porém, a certeza de que depois de seco já não há nada a fazer. Fica como ficar.

A leitora encaracolada, que me está neste exacto momento a dizer que sim com a cabeça, compreenderá o meu sonho impossível de ter uma franja. O meu desejo inalcançável de conseguir escovar os cabelos secos. A minha tristeza por ninguém reparar quando corto o cabelo. 

É uma verdadeira luta? Sim. Uma luta contra nós e contra a nossa natureza. Contra aquilo que somos por fora e que, muito provavelmente, até rima com aquilo que somos por dentro. 

''O teu cabelo é como tu: rebelde, desarrumado e impossível de domar'', disse-me a Dona mãe, durante muitos anos, tentado controlar os berreiros que fazia,  porque queria a todo o custo ter o cabelo liso e loiro (hoje em dia não gosto nada de cabelos loiros, por acaso). 

Todos os meses me levava com ela ao salão do Edmundo, e o Edmundo ( a quem nunca devem ter ensinado que mentir às crianças é feio), convencia-me de que um dia acordaria tal qual a Heidi Klum, borrifando-me o cabelo com água. 

Escusado será dizer que quando a idade me permitiu perceber que o borrifador do Edmundo não era mágico, caiu o carmo e a trindade.

Comecei então a amarrar o cabelo todos os dias, a bezuntá-lo com gel (e ouvir comentários como ''foste lambida por uma vaca''), ou, o pior de tudo,  esticá-lo com prancha! 

Durante o último ano usei o cabelo liso para aí 90% das vezes. Cortei-o pela metade, certa de que um corte pelo ombro, geométrico, faria de mim uma mulher muito mais feliz, e arrependi-me 24 horas depois, quando passei a cabeça pelo chuveiro e me transformei num chaparro alentejano!

Chorei, chorei, e depois chorei outra vez. Insultei (mentalmente) a  progenitora, por ser ela a portadora do gene ''caracol-do-mal''. Chorei mais um bocadinho. Insultei Deus nosso senhor pela criação falhada, e voltei a chorar. Insultei-me a mim pelo corte desastroso e ... cansei-me do desgosto! 

Solução? Esticar o cabelo todas as semanas e rezar para que não chovesse durante 500 dias seguidos.

E ter o cabelo liso tornou-se num verdadeiro encanto! Fazia-me sentir mais bonita, mais segura, mais mulher. Mais profissional, mais arrumada... mais sedutora. Mais sexy! E foi tudo muito lindo e muito certo durante as primeiras semanas. O problema é que o encanto dura pouco, e passados três ou quatro meses estava a bufar pelo nariz.

 Não podia ir ao ginásio porque encaracolava. Não podia mexer-me muito na cama porque encaracolava. Não podia passar muito os dedos pela cabeça porque encaracolava. Não podia apanhar água no banho porque encaracolava. Não podia mil e uma coisas porque, imaginem... encaracolava! Já para não falar na tristeza que é ver o cabelo cada vez mais queimado e mais sofrido. 

 

Ontem, olhei para o meu cabelo e não o reconheci. Sem vida, sem forma, sem corte, sem brilho, sem força, sem nada. Bateu-me uma tristeza desalmada.

E não me perguntem de onde veio o ''clic da libertação'' porque não vos sei dizer. Sei que sentada na beirinha da cama, de frente para o espelho que me mostrava um monte de palha jogado em cima da mona, decidi pôr fim à brincadeira, de uma vez por todas.

E não estou a falar de alisamentos, de escovas progressivas, de relaxamentos, nem nenhuma dessas porcarias disfarçadas de milagre! Não. Decidi voltar a tratar dos meus caracóis. A assumi-los de vez. Assumir-me.

Aceitar que esta sou eu, deixando de uma vez por todas esta escravatura maluca! Porque esta dependência da prancha é isso mesmo, uma escravatura!

 Eu não tenho cabelo liso, nem nunca vou ter, pronto! Assim como nunca vou ter um metro e oitenta. Nunca vou ser boa a fazer contas de cabeça, nem nunca vou conseguir estacionar o carro à primeira. Porque essa não sou EU.

Cansei de me  tentar encaixar num padrão estético que não me reflecte, uma beleza estipulada que não é a minha. Que não me traduz. Em nada.

 

Começo a perceber também que a segurança que sinto quando estico o cabelo é inteiramente psicológica.

Que é cá dentro que me sinto mais bonita e mais iluminada. Que não tem nada a ver com ficar, ou não, mais bonita.  Que nós somos, aos olhos dos outros, aquilo que lhes vendemos.  Que se me sentir igualmente segura e ''mulherão'' de caracóis, é também essa a mensagem que vou passar. E fica tudo certo!

 

Sábado vou a um BOM cabeleireiro e tentar reajustar o corte (ou a falta dele).

Um corte que respeite os meus caracóis. Que os favoreça. Que lhes permita sair do colete de forças em que os enfiei. 

Comprei produtos apropriados, que os hidratem e os reestruturem. Um mimo, depois da valente sova que lhes dei!

 

A vocês que  estão a ler, e que toda a vida têm tentado ''criar de raiz'' um cabelo que não é vosso, deixo a sugestão. Assumam os vossos cabelos naturais! Porque contas feitas, os caracóis não têm nada de errado. Quem tem somos nós.

 

Love*

Elza.

 

Ps: Se gostar do corte (nem toda a gente sabe cortar caracóis) volto para vos contar tudo. 

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