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O COPO MEIO CHEIO.

Se houvesse um sindicato do pessimistas-mórbidos, eu seria eleita ''xô-dona-presidenta'', por maioria absoluta. Era limpinho!

Queridos leitores, a dura ( e escondida) realidade é esta : Não há criatura neste mundo mais pessimista do esta que vos escreve de coração aberto!

E não há nada no meu (ainda curto) historial que o justifique. Não há.

Não tenho uma vida que mereça ser contada nas ''Tardes da Júlia'' ou narrada ao som do ''pianinho-deprimente'' que acompanha os dramas no programa do Goucha. Sou uma pessoa até bastante linear, normal, que é como quem diz a apontar para o  aborrecidinnho. 

Os psicólogos, por exemplo, explicam tudo através de teorias baseadas no ''trauma infantil'', mas assim de repente, o único momento traumático que me ocorre é: o dia em que a minha mãe assumiu que, sendo eu uma menina, deveria ter cabelos compridos. A partir daí, deixou de me levar ao Salão do Edmundo, no centro da vila, e o meu cabelo encaracolado ( que crescia para cima) passou por uma fase pavorosa, que a progenitora tentou combater com ganchos axadrezados e fitas coloridas. Pior a emenda do que o soneto - o terrível horror!!!

Sentia-me ali entre o chaparro alentejano, e o ninho de rolas bravas. Não sabia bem se parecia um rapazito mal trapilho, se uma miúda feia. Foi um período confuso, convenhamos.

Fora isso, sempre tive uma vida santa, o que deveria querer dizer optimismo, crença na sorte. Amor ao rabinho, nascido de frente para a lua!!!!

Mas não. A verdade é que o ''vai correr tudo bem'' não me corre nas veias. Não me está ''na massa do sangue'', como diria o meu avô Manel. 

 

 

Sou geneticamente assim, da mesma forma que sou geneticamente redondinha. Como não quero ser gorducha, faço sempre muito desporto, como de forma saudável, controlo os doces, bebo muita água, enfim... luto contra a natureza ( essa grande sonsa tendenciosa). 

E porque é que estou a dizer isto? Porque com o péssimismo aprendi a fazer exactamente a mesma coisa: É a minha natureza? É. Mas como não quero ser assim, tento contraria-la todos os dias da vida.

Tento pensar positivo, e se não for possível, então opto por não pensar de todo! Se é difícil? É. Mas tem de ser.

Ontem estava em estúdio, e um colega disse-me que uma das minhas mais valias enquanto profissional é a minha voz rouca. Que em emissão se torna sexy. Que não cansa e que alimenta o imaginário de quem me ouve. Agradeci.

Há pouco estava a pensar nisto e a recordar o tempo em que a minha voz grotesca era motivo de chacota. Quando era mais miúda, o timbre grave assustava as pessoas ( e os animais também) Basicamente é isto.

Imaginem uma miúda de cinco anos, pequenina, magrinha, cheia de caracóis, a abrir a boca e a deixar sair uma voz que podia perfeitamente pertencer a um homem de quarenta anos, taberneiro e barrigudo! Ou a um urso, hibernado na mais húmida e sombria das cavernas. Estão a imaginar ? Pronto, essa miúda era eu.

Sempre que atendia o telefone lá de casa, pensavam tratar-se do senhor meu pai. Quando me ouviam falar pela primeira vez, perguntavam invariavelmente à minha mãe se '' a menina estava rouca ou se era mesmo assim? ''.

Não gostava. Não gostava mesmo nada, e sentia que a minha voz de rigoroso Inverno iria ser sempre um problema. Um defeito de fabrico!

 

Se alguém me dissesse naquela altura que, vinte anos depois, a minha voz de urso hibernado seria apelidada de ''sexy'', eu teria ficado muito mais descansada. Ter-me-ia borrifado nas velhas das vizinhas que ligavam lá para casa, e que me confundiam com o ''dom pai''. Se tinha!

Afinal, hoje, é o defeito de fabrico que me paga as contas.

Contas feitas, o problema não é problema nenhum, pelo contrário, é a minha mais valia!!! 

 

Estava aqui a pensar sobre o assunto e apeteceu-me partilhar convosco. Talvez também haja desse lado muita gente ( especialmente mulheres, porque a mulherada é perita nestes dramas existências) a empurrar-se para baixo.

A ver-se sob uma perspectiva castigadora, a sentir-se a bolacha espatifada no fundo do pacote.

 

Se for o vosso caso, lembrem-se que o urso cavernoso, surpreendentemente, pode transformar-se num sexy exemplar da espécie.

Lembrem-se que aquilo que vos torna esquisitas aos olhos dos outros, aquilo que os faz perguntar ''se a menina é mesmo assim?'', pode transformar-se naquilo que vos torna mesmo, mesmo especiais.

 

Pode ser o vosso trunfo. O vosso ''je ne sais quoi ''.

Pode ser o copo meio cheio que todas nós, vezes sem conta, tendemos a esvaziar.

 

Porque somos parvas. Ponto.

 

 

 

 

Love*Love*Love 

 

 

 

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