Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

"O mundo é dos que querem muito, dos que vão e correm atrás"

Às vezes, quando digo que nunca parei de trabalhar, e que tenho conseguido estar em (quase) todos os projecos que ambicionei, perguntam-me a que acho que se deve esta sorte. Se ao aleatório e ao acaso, se ao“estar no sítio certo à hora certa”, se ao trabalho, se ao talento. A quê?

Nunca sei muito bem o que responder. Primeiro porque acho que ainda estou muito no começo. Passaram o quê, 8 anos? Depois porque acredito muito pouco na sorte "solteirona"… a sorte sozinha não vale de nada. A sorte sozinha até pode ter asas, mas não tem pernas para andar. E o caminho faz-se caminhando. Sempre. A sorte precisa casar, ou amantizar-se, vá. 

Acredito (entre outras coisas) na importância das pessoas com que nos cruzamos, e no papel que desempenham no desenhar do nosso percurso. Nas oportunidades que nos dão,  e naquelas que nos negam. 

Quando comecei a trabalhar, comecei pela rádio.  Não foi um um arranque planeado, consegui uma entrevista e lá fui,  na cara e na coragem, desprovida de qualquer responsabilidade. Afinal, ter 20 anos tem de servir para alguma coisa! Os meus serviram para que não tivesse medo de ir. De fazer...  e tudo o que  eu queria era isso,  eu queria fazer!

Não sabia nada, nunca tinha trabalhado, mas achava que aquilo que a faculdade me tinha ensinado (obrigada queridos Francisco Sena Santos e Carlos Andrade, mil vezes obrigada) chegava pelo menos para arrancar! 

Sabem aqueles miúdos que conduzem o carro dos pais na zona industrial das terrinhas e que de repente já acham que podem enfiar-se na auto estrada? Era isso. Eu mal sabia pôr mudanças, mas queria furar pela autoestrada! Queimar alcatrão.

Queria fazer de tudo e queria fazê-lo bem. Tinha uma vontade infinita aliada a uma total impaciência. Afinal, como é que se diz a uma miúda de 20 anos que o tempo nos traz oportunidades? Não diz.

Resolvi assim, numa segunda feira, acampar no escritório do Engenheiro Luís Montez, e tentar que me ouvisse. Ele sabia que ia apresentar o meu currículo, mas não tinha tempo de me atender. Entregar uma folha de papel estava fora de questão... era o que mais faltava!  Eu queria era falar com ele e dizer-lhe que "queria ser da rádio", que precisava de uma oportunidade e  que não arredava pé  enquanto não me dissesse que sim!  Esperei uma hora. Duas horas. Três. Quatro. 

Sentada na recepção do escritório, com a revista “Volta ao mundo" no colo, lendo e relendo uma entrevista de Carlos do Carmo, ensaiei mil vezes o que tinha para dizer. Nunca vou esquecer aquela tarde, aquela capa de revista, o ar da Teresa, secretária do Engenheiro, a olhar para mim como quem pensa “ai filha, vai para casa que hoje não é o teu dia”. E não foi, de facto. 

Saí de lá mais murcha que uma uva passa, com os olhos cheios de água, numa desilusão profundamente imatura. “Quem ele pensa que é?”, repetia-me. (ahahaha).

 Estava a entrar no metro quando o telefone tocou. Do outro lado a Teresa. A querida e sempre firme Teresa.

“Olá Elza. O Engenheiro chegou há pouco, soube que estiveste aqui 4 horas, e pergunta se podes voltar amanhã?”. Voltei. Eu e o meu nariz empinado. Eu e a minha certeza de que não sairia de lá sem um estágio, um part-time, uma coisa qualquer!

Lembro-me como se fosse hoje, de me perguntar o que sabia fazer, e de lhe ter respondido “Nada. Absolutamente nada. O que é que acha que uma miúda que acaba de sair da faculdade sabe? Mas quero aprender tudo, e aprendo depressa”, respondi.

Franziu a sobrancelha, olhou para mim desconfiado. Deu-me uma oportunidade! Porra, a minha primeira oportunidade!

Dias depois, estava do programa da manhã a estagiar. Passados três meses tinha o meu primeiro contrato de trabalho. Bolas, o meu primeiro contrato... numa fase em que todos os meus colegas  lutavam ainda por conseguir pelo menos um subsidio de almoço. 

Na festa de Natal da empresa, lá estava eu. A um canto, sem conhecer ninguém, a sentir-me o novo animal do Zoo para quem todos olhavam.  Nessa noite, o Luís Montez veio ter comigo e disse-me assim:

“Miúda, estas a ver todas as pessoas que aqui estão? Neste momento, todas estão a pensar o mesmo: que te contratei porque és uma miúda muita gira. E deixa-as pensar…. Queres saber porque é que te dei uma oportunidade? Porque vi que tinhas vontade e que querias muito. E o mundo é dos que querem muito. Dos que correm atrás”.

Passaram 8 anos e tenho a certeza de  que não se lembra disto. Já eu, nunca me esqueci. Sempre que arranco um projeto,  sou integrada numa equipa ,ou duvido das minhas capacidades, lembro-me disto: “O mundo  é de quem quer muito e dos que correm atrás”. Respiro e sigo caminho.

 

Não faço ideia como teria sido se tivesse começado noutra empresa qualquer. Não sei qual o segredo para se vingar na profissão que se escolhe, nem sei se existe efetivamente algum segredo. Sei que de tudo aquilo que nos acontece, de todos os sítios por onde passamos, aquilo que nos marca e que nos faz encontrar a nossa verdade são as pessoas com quem nos cruzamos. 

"O mundo é dos que querem muito, dos que vão e correm atrás". Foi esta a minha primeira verdade profissional. Dita pelo pelo meu primeiro patrão.

Continua a ser aquela em que mais acredito. Até hoje. 

 

 

 

 

 

1 comentário

Comentar post